sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Minha 5ª Maratona (Curitiba 2011)

A minha 5ª maratona não começou em Curitiba.
Ela começou no km 38 da Maratona de Assunção.
Ali, meses antes (agosto), eu precisei parar.
Lesão.
Corpo travado. A cabeça querendo ir… mas o corpo dizendo não.
E quem já passou por isso sabe o quanto aquilo pesa. Não é só abandonar uma prova. É sair com a sensação de que ficou algo em aberto.
Aquilo ficou comigo.
Mas, em vez de me derrubar, me fez ajustar.

Voltei diferente. Mais paciente, mais atento, respeitando cada fase do treino. Sem pressa, sem tentar recuperar tudo de uma vez. Apenas fazendo o que precisava ser feito, dia após dia.
E foi assim que eu cheguei em Curitiba, no dia 20 de novembro de 2011...
Confiante. E mas, mais do que isso… consciente.




Na noite anterior, quase não dormi.
A ansiedade apareceu forte. A cabeça já estava na prova, revivendo treinos, imaginando o percurso, antecipando sensações.
Mas isso faz parte.
Com o tempo, a gente entende que nem tudo precisa estar perfeito. Porque o que realmente sustenta no dia da prova é o que foi construído ao longo de meses.

Por volta das 06h20, com o frio marcando 9 graus, eu segui para a largada com os amigos da equipe Baleias.
O corpo sentia o frio.
Mas por dentro, tudo já estava em movimento.
Aquela mistura de nervosismo com vontade. Aquela energia que só quem corre uma maratona conhece.

A largada foi travada.
Muita gente, ritmo lento, quase andando.
E ali já veio o primeiro teste: segurar a ansiedade. Não adianta querer ganhar tempo nos primeiros metros. Maratona não perdoa esse tipo de erro.




Esperei.
Passei pelo tapete, encaixei o ritmo e comecei a correr de verdade.
1º km: 4min02seg.
Exatamente dentro do que eu tinha planejado.
E naquele momento eu senti algo diferente.
Não era empolgação. Era confiança.

Os quilômetros começaram a passar com naturalidade.
Algumas subidas leves apareceram, nada que quebrasse o ritmo. Pelo contrário, eu seguia constante, confortável.
10 km: 39min31seg.
15 km: 58min57seg.
E o mais importante: sem desgaste.
Até uma leve garoa apareceu nesse trecho, ajudando a manter o corpo em uma temperatura perfeita. Tudo colaborava.

Na meia maratona, 1h23min07seg.
Peguei um gel logo depois — o único da prova.
E segui.
Porque naquele dia, tudo estava encaixando.

Cheguei aos 30 km com menos de 2 horas e com uma confiança enorme de que tudo daria certo no final.
Mas maratona é assim. Ela sempre cobra.

No km 34, o ritmo já não era o mesmo.
Não foi uma quebra. Mas já não fluía como antes. O corpo começa a mandar sinais, e é aí que muita gente se perde.
Eu não.
Ali, eu respeitei.
Diminuí um pouco, ajustei o ritmo e segui firme. Sem brigar com o corpo, sem forçar além do necessário.
Experiência também é saber a hora de controlar.

No km 38, veio uma subida mais forte.
E junto com ela, uma lembrança.
Foi exatamente ali, em outra prova, que eu tive que parar.
Mas dessa vez foi diferente.
Passei por ela correndo. Sem drama. Sem hesitar.
E isso teve um peso enorme.

Km 40: 2h42min50s.
Naquele momento, eu sabia.
O sub-3h estava garantido.
E ali, pela primeira vez na prova, eu me permiti desacelerar. Não por cansaço… mas por escolha.
Quis viver aquele momento até o fim.




No km 41, avistei o pórtico de chegada.
E por dentro, a emoção veio forte.
Mas foi quando ouvi os gritos que tudo mudou.
Parte da equipe Baleias que haviam corrido as provas menores estavam lá. Vibrando, chamando, incentivando.
Aquilo não se explica. Aquilo se sente.

Cruzei a linha de chegada em 2h51min54seg pelo tempo líquido oficial da prova c
om uma sensação difícil de colocar em palavras.
Era felicidade. Era alívio. Era orgulho. Tudo junto.




Naquele momento, eu pensei em tudo que tinha feito até ali.
Mais de 250 km rodados no mês anterior.
Longões, treinos de tiro, regenerativos.
E também os dias de descanso.
Porque aprender a parar também faz parte do processo.

Completei assim minha 5ª maratona.
Completei bem.
E ainda subi ao pódio: 6º lugar na categoria.
Sem exageros. Sem euforia.
Mas com a tranquilidade de quem fez o trabalho certo.



Porque, no fim das contas, a maratona nunca é só correr 42 km.
Ela é o que constrói na gente.
Disciplina. Paciência. Resiliência.
E a certeza de que, mesmo quando algo dá errado… sempre dá pra voltar melhor.

No fundo, o que importa não é a velocidade… é a força de continuar.


📖 Continua na série:
Tutta e suas 50 maratonas


















terça-feira, 21 de julho de 2026

Corrida Nº 273 - Desafio APAE Tuicial Run (26abr2026) Cascavel-PR

Duas semanas após cruzar a linha de chegada da minha 45ª maratona, lá estava eu novamente diante de uma linha de largada. Dessa vez, não eram 42 quilômetros… eram “apenas” 10. Mas quem vive a corrida de verdade sabe: não existe prova fácil quando você carrega o desgaste no corpo e a vontade gigante no coração.

"Nem sempre o corpo está no melhor dia… mas quando a mente decide não se entregar, a história muda."



Segue os dados gerais da prova:

Corrida número: 273
Nome da prova: Desafio APAE Tuicial Run 2026
Cidade: Cascavel-PR
Data: Domingo, 26 de Abril de 2026
Distância: 10kms
Tempo: 36min49seg
Média por quilômetro: 3min40seg
Classificação geral: 1º lugar
Atletas no geral: 340 concluintes
Número de pódios (fora de Ubiratã): 157 pódios
Pódios por classificação geral: 71 pódios
Pódios na categoria por faixa etária: 78 pódios
Pódios em equipes e/ou duplas: 8 pódios
Número de peito: 1635


Eu sabia. A preparação para provas curtas não tinha sido como deveria. A recuperação da maratona ainda estava longe do ideal. Qualquer previsão de desempenho naquele Desafio APAE Tuicial Run 2026 era, no mínimo, incerta.
Mas existe algo que não depende de planilha, de treino perfeito ou de descanso ideal.
A
 vontade de se superar.

E quando o tiro de largada soa… eu deixo de ser apenas um mero corredor qualquer. E me transformo em alguém que não aceita se entregar.

Naquele dia 26 de abril de 2026, saímos de Ubiratã ainda de madrugada. 5h da manhã. Céu fechado, carregado, anunciando chuva, muita chuva — daquelas que vêm para lavar mais do que o asfalto.
No carro, minha esposa, a Ester que nos deu carona e a Dayane, que também enfrentaria o desafio. Silêncio, atenção na estrada, expectativa e aquele frio na barriga que só quem vive isso entende.

Chegamos em Cascavel, no Centro de Eventos. Mais de 2 mil atletas inscritos. A maior corrida de rua da cidade.
Peguei meu kit, fiz um aquecimento breve, troquei algumas palavras rápidas com meu primo João e minha prima Clara… mas, por dentro, eu já estava em outro lugar. Na linha de largada.

Focado. Presente. Pronto.

Me posicionei bem na frente. Olhei ao redor. Sabia que tinha gente forte ali. Sabia também que, mesmo sem estar 100%, eu podia brigar.

E então… largamos.

Saí forte. Talvez até mais do que deveria. O relógio marcava um ritmo agressivo — 3:35 no primeiro quilômetro. Corpo ainda pesado, mas respondendo bem. Mente firme.

Segundo km: 3:41.
Terceiro: 3:37.
Quarto: 3:31.
Muito além do que eu poderia imaginar.

Quando os atletas dos 5km fizeram o retorno e seguimos apenas nós dos 10km… foi ali que a corrida realmente começou.
Eu era o terceiro geral.

E não só isso — eu estava colado. A poucos metros do segundo colocado que seguia quase lado a lado com o líder da prova.
Aquela distância que não assusta… mas provoca.

Ali começou o diálogo interno dentro de mim:
“Dá pra buscar.”
“Mas será que o corpo aguenta?”
“Não interessa… vai.” - e fui...

No km 5, fiz o movimento. Acelerei o passo. 
Ultrapassei e assumi a liderança.

Por um instante, pensei: “Pode ser momentâneo.”
Mas passo após passo… aquilo começou a se tornar real.

Até o km 7, ainda sentia a presença de um dos atletas logo atrás. O som das passadas… aquele eco constante que não deixa você relaxar.

Mas então… o som começou a desaparecer.
E ali, eu entendi: a vantagem estava crescendo.

No último ponto de hidratação, a confirmação: mais de 200 metros à frente.

Aquilo não foi apenas informação.
Foi combustível.

Mas, ao invés de aliviar… eu acelerei.
Km 9: 3:24.

Era hora de garantir. Era hora de fechar a conta.
Mas corrida nenhuma se entrega fácil.

Veio a última subida. Dura. Cruel. Daquelas que fazem o corpo cobrar tudo que você já fez até ali.
O ritmo caiu. As pernas pesaram. A respiração apertou.
Mas a mente… A mente já tinha decidido.

Não olhei pra trás.

Venci a subida. Virei à direita. Depois à esquerda. Entrei novamente no Centro de Eventos.
E ali… cruzei a linha de chegada. - Campeão Geral.

Sem nome no alto-falante. Sem aquele anúncio que muitos esperam. No meio de centenas de atletas dos 5km, a chegada foi silenciosa… quase anônima.

Mas dentro de mim?
Foi ensurdecedor.

O tempo não foi dos melhores (36:49)… mas só o fato de voltar a vencer uma prova no geral — não tem preço. Não existe tempo no relógio capaz de diminuir o valor dessa conquista.

Porque, no fundo, eu sabia exatamente o que aquela vitória representava.
Quase 50 anos de idade. Um ano difícil. Preparação longe do ideal. O corpo ainda sentindo a maratona.
E mesmo assim… vencer no geral.
E ainda por cima, na maior corrida de rua de Cascavel.
Isso é muito mais do que um grande resultado.
Uma vitória que não vinha desde 2022.

Depois de comemorar, quase anonimamente, teve o pódio — ajustado, corrigido, esperado. Dois atletas haviam cortado caminho. A classificação foi revista. E então, finalmente, subi ao lugar que a corrida já tinha me dado lá atrás: o topo.

Ali, não era só mais um troféu.
Era a soma de tudo.
Disciplina. Constância. Persistência. Amor pelo que eu faço a quase 27 anos no atletismo.

Por fim, voltamos para casa debaixo de muita chuva. Daquelas que lavam a alma.
E no silêncio da volta, uma certeza muito clara: "Nem sempre a gente está no melhor momento. Mas desistir nunca foi, e jamais será uma opção para o Tutta Maratonista."

Porque no final… a corrida sempre devolve.
E devolve para quem insiste.

E enquanto houver uma linha de largada, haverá sempre uma nova chance de provar — principalmente para si mesmo — do que você é capaz.


Segue abaixo algumas fotos:

Meu numeral.
.
.

Antes da largada.
.
.

Com meu primo João que sempre me dá sorte quando fazemos uma foto. rsrs
.
.

Galera de Ubiratã presente em Cascavel:
Vitor, Leide, Tutta, Daiane, Estér e Edgar.
.
.

A disputa pela liderança dos 10kms.
.
.

Comemorando mais uma vitória no geral.
.
.

Hora da consagração.
.
.

Subir no pódio em primeiro lugar no geral é especial…
mas só eu sei o que precisei vencer para chegar até aqui.
.
.

É sempre bom ter companheiros que valorizam as nossas conquistas.
Valeu Ivan (4º) e Gustavo (3ª).
.
.

Atletas de Ubiratã que pegaram pódio.
Dayane, 2ª na faixa etária dos 10kms;
Vitor, 1º na faixa etária dos 10kms.
.
.

O pódio é só uma parte da história…
o resto foi construído na base da dedicação e persistência.
.
.

Os 15 primeiros colocados dos 10kms da prova masculina.
Até a data desta postagem a classificação completa poderia ser acessada no site Rodrigocirilo.com.br
.
.

A medalha e o troféu.
.
.

Meu maior prêmio... obrigado por estar presente em minha vida e sempre me apoiar.
.
.

Vídeo subindo no pódio.
.
.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Minha 4ª Maratona (Foz do Iguaçu 2010)

No dia 26 de setembro de 2010 - um ano depois da minha terceira maratona, eu voltava a Foz do Iguaçu para correr a 4ª maratona da carreira. O cenário era o mesmo… mas eu já não era o mesmo atleta.

Assim como na edição anterior, fui sem planejamento. Cheguei, retirei meu kit, participei do tradicional jantar de massas e só depois fui procurar um lugar para dormir. A ansiedade, como sempre, não deu trégua. Dormi pouco. Quase nada. Mas, dessa vez, havia algo diferente: confiança. A preparação tinha sido melhor. O corpo estava mais pronto… e a mente, mais forte.

Eu tinha um plano.
Buscar algo próximo de 2h48. Mas, acima de tudo, havia um objetivo muito claro: terminar abaixo das 3 horas. Esse era o compromisso. Esse era o limite que eu não estava disposto a ultrapassar.

O dia amanheceu nublado, com temperatura perfeita. Um convite para sonhar alto. Mas ali estava também um velho conhecido desafio: o percurso mais duro do Brasil. E maratona não aceita excesso de confiança.




A largada veio.

Tentei sair com cautela. Mas a adrenalina falou mais alto. Quando percebi, já estava mais rápido do que o planejado. Ajustei o ritmo. Respirei. Me reencontrei dentro da prova.

Os quilômetros iniciais foram de controle e confiança. O corpo respondia bem, o ritmo encaixava, e tudo parecia sob controle. Passei pela metade praticamente dentro do planejado. Era como se a prova estivesse desenhada.

Após o km 25… tudo começou a mudar.

E ali, ela - a maratona - cobrou.

As pernas começaram a reclamar do esforço, o ritmo foi caindo aos poucos… e cada quilômetro passou a exigir mais do que preparo físico — exigia decisão.

Vieram sequências duras com subidas que pareciam intermináveis. Trechos que pediam mais da mente do que do corpo. E quando entrei no Parque Nacional… entendi que ali não vencia quem estava mais forte. Vencia quem resistisse mais.

Era subida atrás de subida.
Praticamente sem trégua alguma.

A essa altura, o objetivo de 2h48 já escapava. Mas o sub 3… ainda estava vivo. E enquanto estivesse vivo, eu também estaria.

No km 36, parei por um minuto. Água. Coca-cola. Respiração.
Não era fraqueza. Era estratégia. Era decisão de continuar.

Voltei.

E ali, no limite, encontrei mais um pouco de força. O corpo respondeu. A mente sustentou. Cada passo passou a ser uma escolha consciente de não desistir.

No km 41, o relógio apertava… mas ainda dava.
Faltava pouco.

E então… aquele momento.

As Cataratas do Iguaçu surgiram ao lado. Grandiosas. Imponentes. Como se lembrassem que aquilo tudo era maior do que dor, maior do que tempo… maior do que qualquer limite.

Ali, o cansaço virou emoção.
Vieram as últimas curvas. A última subida. E então… a descida final.

A linha de chegada.
O nome sendo anunciado.
E a confirmação de tudo aquilo que foi sustentado até ali… 2h58min36seg.

Abaixo de 3 horas.
Não foi o tempo dos sonhos.
Mas foi uma conquista gigante.

Cruzei a linha exausto, com dores… mas com a certeza de que entreguei tudo. Porque ali não estava apenas um resultado. Estava a prova de que disciplina, constância e coragem constroem algo muito maior do que números.

Cada maratona faz parte de uma história maior. E essa me ensinou algo que levo pra vida: 
não importa o quanto o caminho aperte… quem aprende a resistir sempre encontra uma forma de chegar.


Com o atleta Frank Caldeira.
Senão estou enganado, ele foi vice campeão da prova.
.

.







Leia também:

- A Minha 1ª Maratona
- A Minha 2ª Maratona
- A Minha 3ª Maratona