Eu estava a caminho da minha terceira maratona.
Foz do Iguaçu mais uma vez no destino… o mesmo cenário onde, um ano antes, eu havia concluído a minha segunda prova de 42kms. Mas dessa vez, tudo era diferente. A preparação não tinha sido a ideal, já não contava com a orientação do treinador. Vinha em um acúmulo de três lesões no joelho esquerdo no período e, lá no fundo, eu sabia que aquela prova exigiria mais de mim do que qualquer planilha poderia prever.
Cheguei na cidade sem roteiro, sem planejamento. Retirei o kit já no fim da tarde e, enquanto a noite caía, ainda procurava um lugar para dormir. Aquela madrugada foi longa… não pelo descanso, mas pela falta dele. A ansiedade tomou conta. A mente não desacelerava. O corpo até tentava, mas o coração já estava na largada.
Pouco depois das quatro da manhã, eu já estava de pé, seguindo rumo à Usina Hidrelétrica. O céu ainda escuro contrastava com o turbilhão que eu carregava por dentro.
Às 7 horas, a largada foi dada. Um pouco tarde para uma maratona. O sol já brilhava forte no céu.
Saí tentando encaixar o ritmo planejado. Mas logo nos primeiros quilômetros, percebi que estava um pouco mais rápido.
Km 2, relativamente forte. Km 3, ainda mais forte. E o mais curioso: parecia fácil. Mesmo com a noite mal dormida, o corpo respondia bem… bom demais para ser verdade.
Mas como toda maratona ensina, o preço sempre chega.
Após o km 4 vieram as primeiras subidas — e com elas, o primeiro choque de realidade. No km 5, senti o peso do dia. O calor, o desgaste acumulado, a preparação abaixo do ideal… tudo começou a cobrar seu espaço. Pela primeira vez, pensei em desistir. Sim, já início pensei em abandonar.
Mas seguir em frente sempre foi maior do que qualquer dúvida. Então segui.
Passei os 10 km em 39 minutos. Até rápido, apesar das circunstâncias.
Mas, sabia que precisava justar o ritmo para não quebrar mais pra frente.
Busquei constância, tentei administrar.
No km 15, cheguei com 59 minutos e 20 segundos. O corpo já dava sinais claros, mas a mente ainda sustentava.
No km 16, algo especial aconteceu.
As arquibancadas cheias, provas infantis acontecendo, o locutor chamando os atletas… e, de repente, ouvi o meu nome. Aquela energia atravessou o cansaço. Por alguns instantes, parecia que tudo tinha sido renovado. Foi um daqueles momentos que só quem vive entende.
Mas a maratona não permite ilusões por muito tempo.
No km 19, mais uma subida, mais desgaste… e dessa vez precisei caminhar. Poucos metros, mas necessários. Logo voltei a correr, porque ali, cada atitude fazia diferença.
A meia maratona veio em 1h26min. Peguei melancia, banana, água… e enquanto caminhava, tentava reorganizar o corpo e a mente. Dali em diante, o desafio mudou de forma. Já não se tratava mais de manter ritmo, mas de continuar avançando, da forma que fosse possível.
Corrida e caminhada começaram a se alternar. Cada quilômetro exigia mais. A subida antes da entrada do Parque Nacional foi pesada, desgastante, daquelas que testam tudo. Ali eu entendi mais do que nunca, que aquele dia não seria de desempenho, mas de resistência.
Entrei no parque com mais de 2h15 de prova e ainda restavam mais de 11 quilômetros. O corpo sentia. E muito.
No km 37, surgiu um novo sinal de alerta: uma dor no lado esquerdo do peito. Mesmo com os exames médicos tudo em dia, aquilo exigia respeito. Reduzi o ritmo, caminhei, tentei trotar leve. Segui com cautela.
Naquele momento, não havia mais espaço para provar nada a ninguém. O foco era respeitar meus limites e valorizar cada quilômetro que já tinha sido conquistado.
E então, ao longe, avistei o pórtico de chegada.
Não era apenas o fim da prova. Era o resultado de cada escolha feita até ali. De cada erro, de cada insistência, de cada momento em que eu decidi continuar.
Mesmo em ritmo lento, fiz questão de correr. Cruzei a linha com 3h39min20seg. Quase uma hora acima do ano anterior.
Mas, naquele dia, o relógio era apenas um detalhe.
Porque aquela foi, até então, a maratona mais difícil da minha vida. Talvez pela falta de preparação ideal. Talvez pela ausência de orientação. Talvez pelo calor. Ou talvez porque eu precisava passar por tudo aquilo para evoluir.
A maratona não revela só o quanto você treinou. Ela mostra o quanto você é capaz de suportar, adaptar e seguir em frente quando as coisas saem do controle.
E foi ali que eu entendi: cada prova faz parte de algo muito maior. Cada dificuldade fortalece. Cada chegada transforma.
Essa não foi apenas a minha terceira maratona.
Foi um divisor de águas.
Porque, no fim das contas, não são os 42 quilômetros que te definem… mas sim, a forma como você decide percorrê-los.
E enquanto houver uma linha de largada, haverá também uma nova oportunidade de ser mais forte do que ontem.




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